Aos oitenta e sete anos, tenho a sensação de estar vivendo de hora extra.
Não uso essa expressão como metáfora. Digo isso de maneira bastante literal. Ao longo da vida houve vários momentos em que a história poderia ter terminado. A queda entre a barca e o cais da Praça XV, em março de 1948, alguns acidentes de carro ao longo dos anos e, mais tarde, um episódio cardíaco sério — qualquer um deles poderia ter sido o ponto final.
No entanto, por razões que não sei explicar completamente, continuo aqui.
Com o passar do tempo comecei a pensar que talvez exista um motivo para isso. Talvez a vida tenha me concedido esse tempo adicional para organizar lembranças, compreender melhor os caminhos percorridos e deixar algum registro para aqueles que virão depois de mim.
Este livro nasce dessa ideia.
Não é um livro de memórias escrito por vaidade nem por desejo de autopromoção. É antes uma tentativa de organizar uma história longa, feita de muitas etapas diferentes, e transformá‑la em algo que possa ser útil para minha família, especialmente para meus netos.
Quando somos jovens, raramente pensamos em olhar para trás. Estamos ocupados demais vivendo. Há trabalho, responsabilidades, filhos para criar, decisões para tomar. A vida segue em frente com velocidade e quase não sobra tempo para refletir sobre o que tudo aquilo significa.
Somente mais tarde, quando os anos já se acumularam e a pressa diminui, surge a possibilidade de olhar para trás com mais calma. É nesse momento que começamos a perceber certos padrões, certos encontros, certas coincidências que antes pareciam apenas episódios isolados.
Minha vida, vista dessa forma, parece ter sido composta por várias fases bastante distintas — quase como se tivesse sido vivida em capítulos diferentes. Cada fase trouxe seus desafios, suas descobertas e também, suas dificuldades.
Por isso escolhi organizar este livro em torno da ideia de “sete vidas”. Não no sentido literal, mas como uma maneira de descrever as grandes etapas que marcaram minha trajetória.
Algumas dessas fases foram tranquilas. Outras foram mais difíceis. Em algumas delas aprendi muito; em outras apenas fiz o que era necessário naquele momento.
O que todas têm em comum é que, olhando hoje, percebo como cada etapa acabou influenciando a seguinte.
Se existe uma mensagem neste livro, talvez seja apenas esta: a vida raramente segue um plano perfeito. Muitas decisões são tomadas com informação incompleta, muitos caminhos surgem por acaso, e frequentemente só entendemos o significado de certas escolhas muitos anos depois.
Escrevo estas páginas com essa consciência.
O passaporte já tem o visto; falta apenas o carimbo final, como gosto de dizer. Antes que esse carimbo venha, quis registrar um pouco do caminho percorrido.
Se este relato servir para que meus filhos e netos conheçam melhor a história da família — ou simplesmente para que entendam um pouco melhor o mundo em que vivi — então já terá cumprido seu objetivo.
— Silvano Correa
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